sábado, 2 de maio de 2009

Dezessete

Era uma tarde gélida de céu acinzentado e a mochila estava pronta em frente à porta da sala. Sentada na mobília dura do mais novo ex-locador, Lavínia* segurava seu antigo diário nas mãos.

Havia mudado bastante desde a última vez que escrevera naquele diário. Foram muitos dias extasiantes e muitas horas efusivas, desde a saída de casa aos 17 anos.

Após a primeira fuga, vieram outras fugas, vide suas várias mudanças de paradeiro e endereço. A diferença era que ela não mais fugia de si mesma, mas fugia do que a fazia mal.

Desde os 17, resolveu sim se assumir, assumir sua personalidade vadia, sua sinceridade, sua essência. Sua impureza, seus encantos, seus defeitos. Se perdoou e se aceitou como era.

Deixou para trás comportamentos patéticos e assumiu a beleza de ser sincera consigo própria.

- Está um dia muito bonito para sair daqui- pensou.

Amava dias cinzentos.

Tirou os sapatos, pegou uma garrafa de vinho tinto seco e foi para cama com seu diário - e suas lembranças.

***

Noite e madrugada adentro, reviveu-se através do que lia.

Às 3 da madrugada, ligou para o dono do apê e deixou gravado na secretária eletrônica:

- Resolvi continuar com o apê.

Embriagou- se de sono e acordou sob o mesmo céu cinza, mas com alma de quem está em lugar novo.

* Voz da autora: Lavínia foi uma personagem criada por mim em meados do ano de 2006 e eu resolvi retomá-la em contos e crônicas, postando suas novas histórias aqui no Sei lá, mil coisas®.

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