Outono por aqui. As folhas se enchem
de cor e intensidade antes de se deixarem cair. Tudo quer permanecer. Embora
saibam que o fim está próximo, as folhas demonstram a noção mais pura do tempo.
O tempo é hoje, amanhã já não estarão mais lá.
Disse um poeta que a primavera é a
sexta-feira das estações. Se isso é verdade, seria o outono um belo domingo de
sol?
Eu sou apaixonada pelo outono desde
que vivo do lado de cá do mundo: amo os belos dias cheios de luz, amo as cores
amareladas e alaranjadas das folhas, amo o céu azul e o frio ameno. Outono é
charme só. Outono é a hora da espera mas também é hora do fim.
Os fins também tem sua beleza.
Fecha-se uma temporada. Fica um vazio. Outra se abre. Sem vazios não há
recomeços...
O inverno já não me assusta. Aprendi
nesse ciclo a respeitar os passos do tempo, a desfrutar dos momentos únicos que
só o frio lá fora proporciona. A cada inverno somos chamados a nos recolher e
se a hibernação for bem aproveitada, floresceremostodos com a primavera, melhores do que antes.
... Ao invés de corrermos seguindo o curso das águas que
caem do céu, tudo fica particularmente mais lento. O tempo profundo se instala
e me faz crer que ler é o melhor a fazer. Devorei alguns livros nas últimas semanas, e
quanto mais novas histórias e percepções vem parar aqui dentro, mais forte me
sinto pra encarar a vida nesse 2020 e suas circunstâncias. Sei que é verão em algum lugar da terra, que
agora está fazendo 36°C na cidade maravilhosa, sei que o verão tem essa leveza
de espírito que sempre entra em conflito com o ritmo que o outono dita por aqui.
Compreendo. O blog ficou bem bem abandonado nesses últimos
tempos, sinal de que a vida real tomou total conta do meu tempo.
Talvez tenha
chegado a hora de voltar a compartilhar histórias aqui.
-texto escrito no dia 05/10/2014 mas atual pois rolou segundo-turno. :) Hoje fui votar aqui em Milão pela primeira vez. Como
se sabe, brasileiro residente no exterior pode participar das eleições
presidenciais se houver transferido o seu domicílio eleitoral para o novo país,
com a antecedência exigida por lei e através do consulado brasileiro local.
E lá fui eu, no
centro da cidade, exercer meu direito (direito imposto quase como um dever,
diga-se de passagem) de escolha.
No caminho, ouço brasileiros conversarem no metrô,
avisto brasileiros conferindo seus documentos, me divirto tentando adivinhar
quem é ou não brasileiro, me abstenho de orientar duas brasileiras que estavam
perdidas no metrô* (#soudessas rs), descubro o local de votação seguindo não o
mapa mas o instinto da audição, que fica tão aguçado para o nosso idioma quando
moramos fora.
Fico pensando em todas as vezes que fui votar na vida
e como isso tudo mudou. Antes, era o evento ir visitar o vovô, o almoço de
domingo com a família e certamente encontrar ex-vizinhos e ex- colegas de
escola do bairro onde cresci e prosear.
Hoje foi um passeio solitário onde eu
me vi totalmente imersa num novo mundo, na imponência e beleza arquitetônica do
centro dessa cidade tão elegante e bela.
E com isso vem aquela sensação de ser
um corpo solto no mundo, eu, apenas mais um pequeno grande mundo, inserido ou
não, no contexto de um novo mundo tão diferente do que eu estava acostumada e
tão maior do que aquele que eu idealizava.
E caminhando me descubro O entrelace
entre as duas cidades, a que eu carrego e a que eu vivo.
O dia hoje estava de um céu azul lindo, típico de uma
primavera carioca. E pleno daquelas luzes de outono, típico de um outono
europeu. Entenderam o espírito da coisa?
Prossigo caminhando, constatando o quanto Milão é
bela, viva, pulsante, o quanto Milão é cor, música, gente, vida. O quanto Milão
é mais um pequeno grande mundo, inserida em outro mundo... vejo o quanto Milão
sou eu.
Praça San Fedele.
Milão é música!
Milão é música!
Milão é fashion!
Mantra<3 td="">3>
*P:S: não ajudei as moçoilas porque elas pularam fora do vagão na velocidade da luz e não deu tempo. sou uma boa menina.
Uma das
coisas legais de morar em uma cidade grande como Milão é a vasta e acessível oferta cultural disponível.
Em 2 anos morando aqui, acredito já ter ido mais vezes a museus que em toda minha vida no Rio de Janeiro. Sem contar os excelentes shows, muitos destes
gratuitos ou com ingressos a preços módicos.
Eu me
sinto super feliz quando consigo marcar o tão sonhado [X] ao lado de algum nome
da listinha de artistas que eu sonhava em ver ao vivo e que, se estivesse no
Rio, provavelmente ainda estaria sonhando. São as pequenas conquistas que a
Europa me dá, e no final das contas, sábio foi aquele que proclamou que são as
pequenas coisas que valem mais.
Enfim,
depois de Esperanza Spalding, Damien Rice e Charles Bradley (contei sobre ele no blog aqui), semana passada foi
a vez de ver ao vivo o artista Yann Tiersen.
Yann Tiersen é um compositor e multi-instrumentista francês, que toca piano,
acordeom, violino, guitarra, carrilhão, banjo, bandolim, violão, cravo,
vibrafone, baixo, e qualquer outro instrumento que você colocar na mão
dele.
Ele não só toca vários instrumentos, como toca dois ao mesmo tempo.
Yann ficou
mundialmente conhecido pela composição e performance da trilha sonora do filme
“O fabuloso destino de Amélie Poulain” (2001) filme com um roteiro original, com
ares de contos de fadas, ambientado no bairro parisiense de Montmartre.
A
musicalidade desse cara é tão importante pra mim que a música que chorou no
violino na minha ilustre entrada no meu casamento italiano foi a lindíssima “La
valse d’Amélie” que é a trilha da minha vida. Na trilha do filme, disponível na íntegra no Youtube, temos a sua versão clássica (a minha favorita!) em cravo,
acordeom e piano de brinquedo, além das versões em piano e orquestra, cada uma
mais bonita que a outra.
Além
disso, Yann foi importante pra mim durante os meses mais tensos que vivi aqui,
os meses pré-prova de reconhecimento do meu diploma universitário de
Enfermeira. Foram dias frios e cinzas, de leitura intensa, onde café e Yann me
faziam companhia.
Assistir (ou apenas ouvir) o processo de produção de seu cd "La Traversée" (link aqui) me levava a uma espécie de sintonia divina com os deuses da
genialidade. “Quisera eu ser só um pouquinho talentosa e genial como esse cara!
Quisera eu poder fazer algo grandioso uma vez na vida!” - eu pensava.
E entoava esse mantra, movida
pela sua música, que é um bálsamo para alma, uma inspiração para a criação, o que
me encorajava pouco a pouco e no final o resultado dessa dura prova foi
positivo!
Porque
a valsa pode ser da Amélie mas quem a dança SOU EU!
E o tão esperado dia de ver esse cara ao vivo chegou e foi um dos dias mais especiais da minha vida.
O lugar
do show deu aquele toque a mais: Villa Arconati (ou Castellazzo), uma
casa-museu dos anos 1700, patrimônio histórico nacional da Itália por ser uma
obra-prima do estilo barroco do norte italiano.
Foto da internet, retirada do site Wikipedia.
Convido
a quem ainda não conhecia o Yann, a conhecê-lo e se apaixonar como eu, a cada canção.
Deixo esse trecho de um show ao vivo em 2001, onde ele toca três composições que fazem parte da
trilha sonora do filme. A primeira é “A Quai”, em acordeon; a segunda é “Sur le
fil”, em violino, e por último “Le Banquet”, no acordeon e com uma paleta de
violino sobre um vibrafone.
Quantas
vezes você acorda na vida sabendo que o hoje é dia de realizar um sonho?
Acordei feliz as 8 da manhã de um feriado, corri pra olhar o céu e vi que lá fora tem um sol de outono que me beijou delicadamente e fui pra cozinha preparar
bolinhos de chocolate e leite caseiro de amêndoas pra perfumar a casa e acordar
meu querido bem docinho.
Bem, como parte da listinha de 30 coisas (no
momento tenho 22 itens na lista, seria essa minha idade real? Desconfio...rs) a
fazer antes dos 30 que vai me ajudar a ser mais feliz, hoje vou a um show de um
artista que eu realmente amo e que ouço todo dia (sensação como essa só em 2001
no show dos Backstreetboys-thanks mamy!), que faz parte dos meus momentos
tristes e alegres, momentos metrô e cantando no chuveiro, um artista que ajudou
a construir meu romance, cantor que eu meu querido descobrimos juntos e ouvíamos separados, ele aqui na Itália e eu lá no Rio e isso nos sintonizava
naquelas horas que a vontade de abraçar o amor era maior que a vida.
Esse cara,
que já morou na ruas do Brooklyn, tem uma história de vida dura e de superação e sua voz passa toda a dor e toda a força que ele carrega.
É um cara que se
manteve fiel ao seu sonho e ao seu dom, que se manteve fiel à sua música, à sua
musicalidade que era maior que qualquer contratempo.
Um artista que te faz
sentir que a música tem um puta significado pra ele, que a música o salvou e o manteve vivo.
E a música dele me salva todo dia.
Não falo de técnica e música quadradinha mas de potência vocal, que sobrepõe qualquer nota e que faz dele um
cantor melhor nas versões ao vivo que de estúdio.
O troço vem da alma do cara e
toca a minha, é lindo. O cara dança como se ninguém estivesse vendo e fala as palavras que canta, como um processo de libertação.
Ele gravou
seu primeiro álbum só aos 62 anos de idade e o disco em 2011 foi considerado um dos
melhores álbuns do ano.
E tudo isso pra dizer que hoje tem show dele: Charles Bradley.
No histórico Bloom, local que abriga shows alternativos e em 1991 foi um dos poucos palcos italianos a apresentar a banda Nirvana. Ah! Já vi que vou me emocionar! :)
Um link para um vídeo do Youtube de uma das minhas canções favoritas dele:
Quando cheguei aqui 10 entre 10 pessoas me
perguntavam sobre o clima no Brasil. Espantados com as altas temperaturas do verão do Hell de Janeiro, me perguntavam: "mas o calor é úmido ou seco? Por que
quando é úmido a sensação térmica é pior."
Ou diziam: "Ah, não faz frio! Mas no inverno o clima é úmido ou
seco?”
Juro que nunca entendi isso e sempre achava que calor era calor e frio (de 20
graus) era frio.
Mas italiano é
sensorial e sente a umidade do calor/frio ou a secura do calor/frio na pele. Existem
ainda o vento que corta- suave ou profundamente; e a umidade que te faz sentir
frio nos ossos- deixemos esse assunto pro próximo inverno.
Mal descobri
a sensação de respirar gelo no inverno passado e nesse outono já estou eu descobrindo
a sensação de ver e quase tocar a umidade, e ser tocada por ela nas minhas roupas.
E não, não estava chovendo.
Pra quem
tinha dúvidas: sim, moro em Milão, a capital italiana da neblina.
É aquela coisa:
se os italianos "inventaram"/aprimoraram a pizza, nós inventamos o samba e o tornamos sinonimo de carnaval. E de
carnaval nós entendemos.
Qual a
graça de brincar carnaval com um frio de lascar, vestindo casacões pesados e
sem música? Sobretudo sem nosso calor e sem nossas marchinhas? #nostalgiadocarnavalCARIOCAdetected
Bem, o
carnaval aqui em Milão segue um calendário diverso. Aqui acontece o chamado Carnaval Ambrosiano,
nome proveniente do padroeiro da cidade, Santo Ambrósio.
O calendário ambrosiano adotado pelas paróquias milanesas e regiões adjacentes, prega o
início da quaresma no domingo sucessivo à quarta-feira de cinzas. No calendário Romano (o que os brasileiros e quiçá o restante do mundo seguem), a quaresma
começa na quarta-feira de cinzas, isto é, quando acaba o carnaval.
Aqui é na sexta e
no sábado depois da quarta de cinzas que acontece a folia e durante a semana, só se entende que é carnaval porque vemos na tevê os desfiles das escolas de samba no Rio. Todos trabalham normalmente, não tem feriado e os festejos são aos finais de semana até mesmo nos carnavais italianos mais longos e tradicionais como os de Veneza e Viareggio.
O Carnaval Ambrosiano, até lembra (de longe, muito de longe) o carnaval das cidades do interior do
Rio. Isto é: há um desfile meio amador, com alguns carros alegóricos pequenos ou bonecos gigantes, confete e serpentina, crianças
fantasiadas, porém... em pleno inverno. E praticamente sem música. Uma aqui, outra ali,
mas nada que deixa a folia com cara de fééééIXsta.
A fofura
da coisa fica por conta das crianças fantasiadas. São tantas pelas ruas
fazendo festa e também nos restaurantes e shopping centers, nos passeios
rotineiros com os pais.
Elas sim,
vivem as suas fantasias e se desprendem da "vida real" e festejam sem se importar com música, frio, clima... será que vale a pena aprender a ser mais livre e leve como uma
criança para me deixar envolver e viver também o carnaval ambrosiano de Milão?
Vou buscar
essa resposta no carnaval do ano que vem. Quem sabe em Veneza? Ou no Rio de
Janeiro?
Não sei. Só sei que quero ir pra onde estiver minha criança interior. E fantasiada de menina feliz.
Foram duas as primeiras vezes em que abri os olhos para o mundo: quando nasci, numa tarde de inverno, e quando aprendi a ler, numa manhã de verão.
Meu nome é Nely e não tenho do quê reclamar nessa vida.
Este blog é um esforço lúdico para me lembrar todo dia quem eu sou e de onde vim.
É aqui que eu planto o meu silêncio e vejo brotar arte.
É aqui que eu me reinvento.
*
“Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido.” - Rubem Braga
*
“Continuo a pensar que quando tudo parece sem saída, sempre se pode cantar. Por essa razão, escrevo.” - Caio Fernando Abreu
*
“Sei que a poesia é o veio mais apropriado para lidar com as memórias que saem aos pedaços.”
“O mundo precisa de poesia- aquilo era crença vital: acredito nos poderes da criação poética para transformar o mundo, acredito na beleza da língua portuguesa." - Poeta Armando Freitas Filho